Aula Aberta: Sensibilidade Religiosa no Espaço das Experiências Reducionais

A devoção e o ardor carismático com que os indígenas Guarani manifestavam sua religiosidade nas reduções da Província Jesuítica do Paraguai são referidos na documentação jesuítica como indícios de sua adesão aos valores cristãos e como demonstração pública da assimilação da “civilização dos afetos e da conduta”. 

Nesta exposição, contudo, consideramos que a conversão dos Guarani ao Cristianismo não deve ser percebida como um processo linear de abandono progressivo de sua religião – e sua substituição por outra –, na medida em que entendemos que estes adaptaram a doutrina cristã a sua próprias necessidades psíquicas e a sua própria sensibilidade, igualmente marcada pela devoção, fervor emocional e exaltação ritual-religiosa. Assim como para Juan Estenssoro, entendemos que a conversão dos indígenas ao Cristianismo não deve ser percebida como “um processo linear de abandono progressivo de uma religião, substituída por outra”, uma vez que “qualquer passo rumo à aceitação só é dado quando se oferece uma resposta eficaz às necessidades simbólicas equivalentes à do antigo rito, ou quando se cria a necessidade a que o novo rito responde” (1999, p.188). Sob esta perspectiva, propomos que também os Guarani reformularam a doutrina cristã para adaptá-la às suas próprias necessidades psíquicas e a sua própria sensibilidade, marcada pela devoção, fervor emocional e exaltação ritual-religiosa.